Trabalho voluntário: o manual de como não ser o “branco salvador”

Se você acompanha o Instagram ou mais especificamente, contas dedicas a viagem, muito provavelmente já notou usuários da rede realizando trabalhos voluntários ao redor do mundo. O que dizer sobre uma pessoa que sai de sua zona de conforto, deixando a comodidade de casa, família e amigos, para ajudar os mais necessitados? São almas no mínimo altruístas, mas é preciso ter alguns cuidados para que o verdadeiro objetivo do voluntariado não se perca.

A estereotipação do voluntariado

Juntamente com a popularização do voluntariado é fácil notar o crescimento de mídias estereotipando as ações humanitárias. Por isso, em novembro de 2017, a ONG norueguesa Norwegian Students’ and Academics’ International Assistance Fund (SAIH) lançou uma campanha mundial intitulada Radi-Aid.

Entre os principais objetivos da iniciativa está a conscientização a respeito dos registros fotográficos dessas ações. Isso porque se tornou praticamente comum o compartilhamento de situações onde o voluntário, geralmente branco, está cercado por pessoas necessitadas. As situações variam: pode ser a distribuição de doces, praticando esportes, ajudando em hospitais ou trabalhando em meio as condições precárias. Confira o vídeo (em inglês) da campanha para entender melhor:

Isso em si, não tem nada demais. Contudo, de acordo com a campanha, o simples gesto de compartilhar na rede suas “boas ações” ou a “realidade” pode não colaborar beneficamente com as pessoas daquele país. Pior ainda, este tipo de ação pode deixar de lado a real função do voluntariado proposto pelas ONGs.

Qual o problema nisso?

O que muitas vezes se esquece é que esses voluntários, ao publicarem tais fotos, podem (mesmo sem querer) reproduzir uma imagem que reforça ideia do “branco salvador”. O que seria isso? Aquele voluntário que chega em regiões cercadas de miséria e doenças para “salvar” os desafortunados – grande maioria, negros.

Ao compartilhar essas imagens na rede o registro acaba se espalhando rapidamente. A questão é que com isso, muitas vezes a dignidade e a privacidade dessas pessoas se perde. Até porque, além da maioria das imagens serem registradas sem a permissão dos envolvidos, não apresentam o real contexto real da situação. O resultado é uma publicação vazia e carregada do esteriótipo negativo.

“Complexo do Branco Salvador”

Segundo o site NPR, Beathe Ogard, presidente do SAIH, afirma que esses são os reflexos do “Complexo do Branco Salvador”. Isso se deve ao fato grande parte das imagens divulgadas, contarem com diversas hashtags – ajudando ainda mais as fotos a se proliferarem nas redes. Estas retratam pessoas e crianças como se estivessem abandonadas, dignas de dó. O objetivo nestes casos é bem claro: passar a imagem de herói e acumular likes nas redes sociais.

O guia definitivo: “Como se comunicar com o mundo”

Para evitar que este tipo de comportamento a campanha criou um guia que pontua comportamentos que devem ser evitados. Contudo, o principio é fácil: não usar palavras e imagens que denigram a imagem da pessoa ou da comunidade. Mas, se ainda assim rolar uma dúvida se deve ou não compartilhar um conteúdo, faça o seguinte:

  • Pergunte para si mesmo: “qual a minha intenção com essa publicação?”;
  • Obtenha o consentimento da pessoa retratada na imagem. Se você não pode explicar por que você está tirando uma foto, encontre um tradutor;
  • Conheça o nome e os antecedentes das pessoas retratadas;
  • Ofereça à pessoa da foto uma cópia da fotografia;
  • Evite generalizações simplificadas e abrangentes, inclua texto informativo com nomes, local, etc;
  • Seja respeitoso sobre as diferentes culturas e tradições;
  • Pergunte-se: eu apreciaria ser retratado da mesma maneira?;
  • Evite situações sensíveis e vulneráveis e determinados locais, tais como hospitais e clínicas de saúde;
  • Não se retrate como o herói da história transmitida;
  • Desafiar as percepções, derrube estereótipos!

Barbie Savior

Para reforçar a campanha e ilustrar o comportamentos desnecessários, foi criado um perfil no Instagram denominado “Barbie Savior” ou Barbie Salvadora em português.

 

Today I sacrificed my daily beauty regimen (using my Rodant in Heels™️ product line) to visit the local “hospital” (if you can even call it that!) to love on and care for all of my sweet African angels. It provided me the perfect opportunity to snap some selfies with the less fortunate, even with poor lighting. One of the greatest lessons I’ve learned over the years is taking selfies in Africa is NOT for the faint of heart…it’s an art form. One I have perfected, along with my super toned thighs. There is a social media guide floating around for people who try to volunteer just like me, so I’m glad there is now something out there to help you all learn how to be more like me! #exceptnot #dontbeaB #readtheguide #hateuscuztheyaintus #pagingdoctormcsavior #selfiesquats #mypaindoesntcomparetohers #butjusttobeclearimstillsuffering4jesus #icanbeyoursaviorbaby #icanselfieawaythepain #asavioraday #keepsthegeniusaway #jerrycansoverbedpans #operationbarbiesavior #codepink #praythreehailmarysandcallmeinthemorning #gunnagetcheckedoutwhileimhere #itstartedtoitch #challengethestereotypes #radiaid #rustyradiator All jokes aside, we are thrilled to have worked with our friends at Radi-Aid on our social media guide. Link in profile. Don’t be a B.

Uma publicação compartilhada por Barbie Savior (@barbiesavior) em

A intenção é replicar através da boneca as situações estereotipadas pelos voluntários. Claro que tudo conta com muito humor. O objetivo do perfil é criticar os que estão mais preocupados com selfies do que em ajudar essas pessoas.

A importância do trabalho voluntário

É importante lembrar que ninguém é contra o trabalho voluntário, muito pelo contrário. Acreditamos que se cada um fizer sua parte o mundo será um lugar melhor, menos desigual e com oportunidades para todos –  por mais que isso ainda demore.

Contudo, o que não podemos deixar de lado é o real objetivo destas ações. Não é por um like ou uma curtida, mas sim pelo bem feito ao próximo. Obviamente que nada impede que fotos e vídeos sejam compartilhados, o importante aqui é não denegrir, muito menos estereotipar ninguém. Por isso, fica aqui o nosso muito obrigado aos que se dedicam pelo bem de todos 🙂

 

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